Lucas Warren, biólogo de 28 anos, sempre encontrava nas montanhas um refúgio que o mundo urbano não podia oferecer. A solidão das trilhas, o cheiro da neve misturado à terra úmida, o canto distante dos pássaros — tudo isso se tornava parte de sua pesquisa e de sua necessidade de silêncio. Em outubro de 2013, ele se preparava para uma curta expedição no Parque Nacional das Montanhas Rochosas, uma área pouco conhecida chamada Black Bear Creek Canyon. Para qualquer visitante comum, a trilha seria apenas mais um caminho cercado por árvores densas e desfiladeiros íngremes. Para Lucas, era o lugar perfeito para coletar amostras de musgos raros, espécies que ele estudava há meses para sua tese de pós-graduação na Universidade de Boulder.
Na manhã do dia 12 de outubro, Lucas carregou seu velho SUV com tudo que precisaria para três dias sozinho na montanha. Uma barraca, saco de dormir, recipientes herméticos, uma câmera de campo e utensílios básicos de sobrevivência — cada item meticulosamente organizado em sua mochila. Sua esposa, Ana, observava em silêncio, segurando uma caneca de café. Ela conhecia aquele ritual: ele partia, prometia voltar no final da semana, e o silêncio se instalava em casa como se a própria cidade soubesse que ele estava indo para um lugar onde o tempo não existia. Lucas beijou sua testa e disse: “Volto no domingo, ao meio-dia.”
O carro dele foi registrado na entrada do parque por uma câmera de segurança, e pouco depois ele escreveu seu nome no registro de visitantes, acrescentando a promessa: “Retorno em três dias. Um objetivo: estudo de campo.” No início da manhã seguinte, Ana recebeu a última mensagem curta: “Cheguei ao acampamento. O nevoeiro é incrível. Amanhã irei mais alto, se houver sinal. Eu te amo.” Era a última vez que qualquer pessoa ouviu a voz de Lucas.
Quando ele não retornou na segunda-feira, Ana sentiu o primeiro pressentimento de que algo estava errado. Na terça-feira, ela acionou os guardas florestais, iniciando uma busca que rapidamente se mostrou infrutífera. O tempo deteriorou rapidamente; o nevoeiro desceu das montanhas, a neve começou a cair e cada trilha parecia desaparecer sob a espessa camada branca. Horas depois de iniciar a operação de busca, encontraram o carro de Lucas no estacionamento, intacto, com a porta trancada e seus pertences organizados como se ele tivesse apenas saído para dar um passo breve na floresta.
O primeiro achado do acampamento foi ainda mais desconcertante. A barraca estava desmontada, a mochila aberta e os itens espalhados. Tudo parecia pronto para a continuação de sua expedição, mas nenhum sinal de Lucas foi encontrado. As pegadas desapareciam abruptamente na neve, como se o ar tivesse engolido seu rastro. Cães farejadores perderam o caminho a poucos metros do acampamento, e não havia sinais de luta ou arrasto. Era como se ele tivesse sido engolido pelo próprio nevoeiro que tanto admirava.
O líder da equipe de busca, Jake Brady, percebeu rapidamente a dificuldade da operação. As encostas estavam perigosas, pedras rolavam, temperaturas caíam abaixo de zero. Durante dias, os voluntários vasculharam cada árvore caída, cada fenda, cada riacho estreito. Mas o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo vento que cortava as trilhas e pelo frio que se infiltrava nas botas e nas roupas dos resgatadores.
A última pessoa que disse ter visto Lucas vivo foi o motorista de um ônibus de turismo que descia pela estrada naquela manhã. Ele descreveu um homem de jaqueta verde parado junto a uma árvore quebrada, olhando para o nevoeiro. Não havia mais testemunhas, nem pistas, apenas a lembrança daquele olhar perdido que desapareceu na bruma. Ana leu repetidamente a mensagem curta que recebera, cada palavra agora carregada de uma sensação de final irrevogável.
Conforme os dias passavam, a cidade de Boulder mergulhou no silêncio de um desaparecimento que parecia impossível de resolver. Ana recusava-se a aceitar o status de desaparecido oficial. Ela caminhava sozinha pelas trilhas, estudava mapas antigos e registros da universidade, tentando descobrir algo que explicasse o inexplicável. Cada pedra, cada riacho, cada nevoeiro espesso parecia sussurrar um segredo que só Lucas conhecia.
E então, meses depois, um detalhe esquecido — uma pequena estátua de madeira em forma de pássaro, encontrada perto do acampamento — iniciou uma nova linha de investigação. Ana não sabia ainda, mas aquele simples objeto carregava a chave para um mistério que atravessava gerações, um segredo antigo que ainda observava as montanhas silenciosas de Black Bear Creek.
Meses se passaram desde o desaparecimento de Lucas, e o silêncio nas montanhas não havia diminuído. Ana Warren continuava a estudar cada detalhe que pudesse indicar o paradeiro de seu marido. Entre pilhas de mapas antigos, registros do parque e notícias de desaparecimentos passados, um padrão começou a surgir: Black Bear Creek Canyon não era apenas traiçoeiro — era perigoso de uma maneira que desafiava explicações.
Em maio de 2018, um grupo de ornitólogos da Universidade do Colorado partiu em uma expedição para monitorar ninhos de águias-carecas na parte norte do Black Bear Creek, cerca de cinco milhas do local do desaparecimento de Lucas. O terreno era quase inacessível: desfiladeiros íngremes, árvores caídas, solos instáveis. Mesmo pesquisadores experientes evitavam a área. A equipe era liderada pelo professor Thomas Clark, acompanhado do jovem pesquisador Mark Deliney, que operava um drone para mapear os ninhos e registrar dados de observação.
No início da manhã, o céu nublado lançava uma sombra densa sobre as copas das árvores. Clark observava o terreno enquanto Mark manobrava o drone, capturando imagens aéreas de alta resolução. À medida que sobrevoavam a floresta, Mark percebeu algo estranho: um ninho no topo de um velho pinheiro parecia reforçado de maneira incomum. Objetos claros refletiam a luz do sol, misturados aos galhos e musgo. Ele ampliou a imagem, e o que viu fez seu coração acelerar. Entre os galhos, havia ossos — e no centro do ninho, um crânio humano intacto, posicionado como se tivesse sido colocado deliberadamente.
O professor Clark ficou incrédulo. Ele ordenou que o drone fotografasse o ninho de diferentes ângulos, registrando cada detalhe. Não havia dúvida: um crânio humano repousava entre ossos de animais e pequenos fragmentos de madeira esculpida, escura, em forma de pássaro com pernas desproporcionalmente longas e asas abertas. A semelhança com a pequena estatueta que Ana havia encontrado perto do acampamento de Lucas três anos antes era perturbadora.
A equipe de especialistas do parque precisou de escalada profissional para chegar ao ninho. David Johnson, técnico experiente, foi o primeiro a subir. Sua corda tremia com rajadas de vento, mas ele conseguiu alcançar o topo. Pelo rádio, confirmou: o crânio era humano, e havia uma figura de madeira semelhante à estatueta que Ana conhecia. Os especialistas removeram o material cuidadosamente, preservando ossos, pedaços de madeira e pedras brilhantes que decoravam o ninho.
A análise inicial foi desconcertante. O crânio estava limpo, sem restos de tecido, e os ossos indicavam um procedimento ritualístico. Marcas finas, precisas, sugeriam o uso de lâmina ou instrumento afiado, semelhantes às encontradas na pequena estatueta de madeira. A causa da morte permanecia desconhecida. Ninguém podia explicar como o crânio foi parar no topo de uma árvore inacessível, nem por que a mesma estatueta de madeira estava presente, agora duas vezes, em locais separados.
Para Ana, aquilo não era coincidência. Cada detalhe — o crânio, as figuras de madeira, o lugar remoto — apontava para algo mais profundo, uma história que atravessava décadas e talvez séculos. Ela começou a pesquisar desaparecimentos antigos na região e encontrou registros de homens, mulheres e famílias inteiras que haviam desaparecido sob circunstâncias semelhantes. Todos os casos tinham uma conexão com Black Bear Creek Canyon: trilhas perigosas, nevoeiro espesso e relatos de sons estranhos ou sombras movendo-se sem explicação.
O antropólogo Harvey Lang, chamado para analisar as estatuetas e o crânio, fez uma descoberta inquietante. Todos os objetos de madeira — a estatueta encontrada por Ana, a do ninho e uma terceira peça histórica de um museu local — eram feitos do mesmo tipo de madeira, um álamo escuro que não crescia na região. Cada figura mostrava entalhes precisos, não de ferramentas modernas, mas de facas antigas ou cinzéis de silex. A estatueta representava o tartaranhão dos pântanos, um pássaro simbólico de antigas tribos caçadoras, considerado um guia de almas entre o mundo dos vivos e o submundo.
À medida que Lang e os investigadores mapearam os desaparecimentos e os locais onde as estatuetas haviam sido encontradas, notaram um padrão impressionante: todos formavam um círculo claro de cerca de dez milhas de raio, com um pântano no centro, inóspito até para caçadores experientes. O local era conhecido entre os habitantes locais como “o abismo”. Ninguém se aventurava ali, e o nevoeiro persistente criava uma barreira natural contra intrusos.
A descoberta do ninho de águia, do crânio e das figuras de madeira ligava Lucas Warren a uma tradição obscura, uma repetição de desaparecimentos que atravessavam gerações. Ana percebeu que não estava apenas lidando com o desaparecimento de seu marido — estava diante de um mistério ancestral, um ritual que parecia continuar vivo no coração da floresta de Black Bear Creek.
Após a descoberta do crânio no ninho da águia e das estatuetas, Ana Warren sentiu que finalmente estava chegando perto de respostas, mas o mistério só se aprofundava. No outono de 2018, acompanhada por um pequeno grupo de investigadores e guardas florestais, ela decidiu explorar mais profundamente o coração de Black Bear Creek, guiada pelos mapas e pelo padrão que Harvey Lang havia identificado.
O terreno era extremamente traiçoeiro: árvores antigas bloqueavam trilhas estreitas, o solo estava encharcado e o nevoeiro persistente reduzia a visibilidade a poucos metros. A cada passo, o ar parecia mais pesado, carregado de um cheiro úmido e antigo, como se a floresta retivesse memórias de acontecimentos esquecidos. A equipe encontrou vestígios de antigos acampamentos, pequenos ninhos de musgo e galhos entrelaçados, mas nenhum sinal de humanos recentes — exceto pelas marcas que indicavam passagem de animais.
No centro do círculo mapeado, uma depressão profunda no solo chamou a atenção. As câmeras térmicas mostraram um calor anormal, movendo-se de forma errática, como se pequenas formas estivessem lá dentro. O detetive Allan Moore foi o primeiro a se aproximar. Ele iluminou a área com uma lanterna e percebeu um arco formado pelas raízes de uma árvore enorme, revelando a entrada de uma caverna natural. O interior parecia inexplicavelmente quente, com uma leve fumaça pairando sobre o chão.
Ao adentrar a caverna, eles encontraram estruturas de madeira e galhos, lembrando ninhos gigantescos. Alguns estavam vazios, outros continham musgo, ossos de animais e estatuetas semelhantes às encontradas por Ana e no ninho de águia. No centro da caverna, sobre uma pedra plana que parecia um altar natural, havia dezenas de estatuetas de madeira, todas representando pássaros com pernas desproporcionais, entalhadas com precisão. Entre elas, objetos de metal, anéis, cartões antigos e fragmentos de relógios formavam uma coleção macabra, possivelmente oferecendo presentes ou tributos.
O detalhe mais perturbador era um crânio humano antigo, coberto por uma fina camada de fuligem, ao lado de um galho com penas presas na ponta. A caverna parecia um santuário ritualístico, abandonado recentemente, mas com evidências de presença humana — brasas quentes ainda queimavam no centro, indicando que alguém estivera ali não muito tempo antes.
Harvey Lang analisou as estatuetas e percebeu que todas eram feitas do mesmo tipo de madeira escura, não nativa do Colorado, e entalhadas com ferramentas antigas. A repetição do símbolo do tartaranhão dos pântanos sugeria que alguém mantinha um ritual ancestral, possivelmente ligado à crença de guiar almas entre os vivos e os mortos.
Investigadores mapearam os desaparecimentos de décadas passadas na região: homens, mulheres e famílias que haviam desaparecido em circunstâncias similares formavam um padrão quase perfeito, circundando o mesmo pântano central. Restos humanos antigos, com marcas idênticas às encontradas no crânio de Lucas Warren, haviam sido descobertos entre os registros históricos da família Hthorn, colonos que desapareceram em 1902.
Cada detalhe parecia apontar para um culto ou tradição secreta que atravessava séculos, mantendo rituais antigos na floresta. Ana percebeu que os desaparecimentos modernos, incluindo o de seu marido, não eram aleatórios, mas parte de uma repetição sistemática desse ritual ancestral. O abismo no coração de Black Bear Creek continuava a guardar segredos que a ciência e a lei ainda não podiam explicar.
O grupo deixou a caverna com uma sensação de inquietação profunda. O nevoeiro parecia mais denso, como se a floresta estivesse observando cada movimento. O silêncio das montanhas, interrompido apenas pelo farfalhar de galhos e o vento úmido, lembrava a todos que aquilo não era apenas uma história de desaparecimentos: era uma tradição viva, aguardando novos participantes.
Ana, segurando a estatueta de Lucas, sentiu o peso da continuidade. O crânio de seu marido havia sido encontrado, mas o mistério persistia. Quem perpetuava os rituais? Por quê? E quem mais poderia estar escondido naquela floresta, observando, esperando? A sensação de que algo a espreitava nunca a abandonou. Black Bear Creek não havia revelado todos os seus segredos.
Na primavera de 2019, após meses de análise e planejamento, Ana Warren e a equipe retornaram a Black Bear Creek com equipamentos arqueológicos e câmeras especiais. O objetivo era explorar a área pantanosa no centro do círculo de desaparecimentos, apelidada pelos moradores locais apenas de “o Abismo”. A vegetação era densa, o solo lamacento e os nevoeiros permaneciam espessos mesmo durante o dia. Cada passo exigia cuidado, e o ar parecia carregar o peso de séculos de silêncio.
Seguindo as coordenadas obtidas pelas imagens térmicas dos drones, os investigadores encontraram pequenas depressões no solo, algumas cobertas de musgo e galhos. Após escavar cuidadosamente, descobriram ossos humanos antigos dispostos de forma deliberada, como se alguém os tivesse enterrado com um ritual preciso. Os restos incluíam crânios, fêmures e costelas, alguns ainda com marcas finas e profundas semelhantes às encontradas no crânio de Lucas Warren. O antropólogo Harvey Lang confirmou: eram ossos de mais de cem anos, possivelmente pertencentes à família Hthorn, desaparecida em 1902.
O padrão das escavações sugeria que aquele não era um cemitério comum. Cada corpo parecia ter sido posicionado com cuidado, cercado por estatuetas de madeira representando pássaros com pernas longas, como se estivessem protegendo ou guiando as almas. Entre os ossos, os investigadores encontraram fragmentos de roupas antigas, pedaços de metal corroído e pequenas pedras lisas, possivelmente usadas como oferendas. Ana sentiu um frio intenso ao perceber que os rituais antigos continuavam vivos de alguma forma, conectando os desaparecimentos passados aos eventos recentes, incluindo o de seu marido.
Enquanto escavavam, a equipe notou que a temperatura do solo variava de forma anômala em alguns pontos, como se algo estivesse sob a terra gerando calor ou movimentando-se discretamente. Um dos guardas florestais iluminou com a lanterna uma pequena abertura entre as raízes de uma árvore próxima e percebeu que havia algo mais profundo, um túnel estreito que descia para a escuridão. O cheiro de terra úmida e madeira antiga aumentava, misturado a um aroma estranho, quase metálico.
O detetive Allan Moore, equipado com cordas e lanternas, foi o primeiro a descer. No fundo, encontraram uma pequena câmara subterrânea natural, com paredes cobertas de musgo e símbolos entalhados. No centro, um altar improvisado de pedra sustentava várias estatuetas idênticas às encontradas na caverna e no ninho da águia. Entre elas, havia ossos humanos menores, provavelmente restos de vítimas recentes ou animais utilizados para manter a tradição ritualística.
O que mais chamou atenção da equipe foi a precisão do arranjo: os objetos formavam círculos concêntricos, como se seguissem uma lógica matemática ou astronômica desconhecida. Harvey Lang sugeriu que se tratava de uma espécie de “mapa espiritual”, uma forma de alinhar os vivos com os mortos e com a própria floresta, mantendo a continuidade do ritual por gerações. Ana percebeu que a prática ancestral da família Hthorn havia sobrevivido ocultamente, influenciando desaparecimentos ao longo de mais de um século.
Enquanto os investigadores documentavam a câmara, o nevoeiro começou a se adensar ainda mais ao redor do Abismo. Sons suaves e quase imperceptíveis de passos ou farfalhar de asas ecoavam entre as árvores, mas ninguém estava visível. A sensação de ser observado era intensa. Alguns membros da equipe relataram arrepios e dificuldade em respirar normalmente, como se a própria floresta estivesse viva, reagindo à presença humana.
Ao retornar à superfície, Ana segurou firme a estatueta de Lucas Warren. Cada descoberta confirmava que seu marido não havia desaparecido por acaso. Ele havia sido atraído, de alguma forma, para o mesmo padrão ritualístico que havia marcado o Abismo por mais de cem anos. A caverna, os ninhos, as estatuetas e agora a câmara subterrânea eram fragmentos de uma tradição que ninguém ousara interromper, e que agora estava exposta à luz.
Os investigadores decidiram estabelecer vigilância contínua na região, mas a dificuldade do terreno, a densa vegetação e os nevoeiros impossibilitavam uma observação constante. Mesmo assim, Ana sentiu que estava mais próxima da verdade do que nunca. O Abismo não era apenas um local de desaparecimentos; era um ponto de convergência entre o passado e o presente, entre o mundo humano e algo antigo, ancestral e inexplicável.
O próximo passo seria analisar cada fragmento, cada estatueta e cada ossada com técnicas modernas de arqueologia, antropologia e forense. Ana sabia que, apesar das respostas parciais, o mistério estava longe de terminar. O Abismo ainda guardava segredos que talvez ninguém jamais revelasse por completo, e a sensação de que algo a observava permanecia constante, mesmo longe das montanhas.
Nos meses seguintes, Ana Warren e os investigadores continuaram a mapear o Abismo e os arredores do Black Bear Creek Canyon. Cada ponto de desaparecimento, cada estatueta de madeira e cada registro antigo da família Hthorn foi digitalizado e analisado. O padrão era inconfundível: todos os desaparecimentos modernos formavam um círculo quase perfeito ao redor do pântano central, e cada vítima tinha algum tipo de ligação com a natureza ou com a pesquisa científica na região, como Lucas, os geólogos e biólogos que desapareceram ao longo das décadas.
O antropólogo Harvey Lang começou a estudar profundamente as estatuetas de pássaros com pernas longas, as chamadas figuras do tartaranhão dos pântanos. Em registros antigos, descobriu que cada pássaro representava uma “mensagem” ou “oferta” deixada para espíritos guardiões da floresta. Os antigos caçadores Uti acreditavam que aqueles que ousavam entrar profundamente no território de Black Bear Creek sem respeitar a floresta seriam seguidos por essas entidades, guiadas pelos pássaros. Cada estatueta encontrada perto dos desaparecidos modernos tinha marcas similares às antigas, feitas à mão, como se alguém estivesse repetindo os mesmos rituais da família Hthorn.
Em agosto de 2019, a polícia recebeu um relato inquietante de um caçador local. Ele disse ter visto uma figura humana vestida com roupas antigas, carregando uma lanterna, movendo-se lentamente pelo pântano ao entardecer. A testemunha descreveu detalhes que coincidiram com o padrão do culto: a figura deixou pequenas estatuetas no chão e parecia estar realizando algum tipo de cerimônia silenciosa. A polícia enviou investigadores ao local, mas, ao chegarem, tudo estava vazio, sem sinais de pegadas ou qualquer presença recente. Apenas o nevoeiro espesso cobria o pântano, e o ar tinha um cheiro peculiar de resina velha, como o das estatuetas de madeira.
Ana começou a perceber que seu marido havia sido vítima de um sistema muito mais complexo do que simples acidentes ou predadores naturais. Ele não havia se perdido por acaso; havia sido atraído para a área como parte de um ritual repetido há mais de um século. Cada passo que Lucas deu na floresta correspondia a um padrão que os antigos seguidores do culto conheciam, e que ainda hoje era praticado por alguém capaz de permanecer invisível e persistente.
O detetive Allan Moore, que acompanhava Ana, percebeu algo perturbador ao revisar os registros antigos: todas as vítimas modernas tinham algo em comum. Não apenas a localização ou a ligação com a ciência, mas uma data próxima ao equinócio ou ao solstício. Isso indicava que os rituais ancestrais não eram aleatórios; eles seguiam o calendário natural, possivelmente em adoração a forças que os habitantes antigos acreditavam controlar a vida e a morte nas montanhas.
Enquanto isso, drones equipados com câmeras térmicas monitoravam a área do pântano. À noite, os investigadores observaram movimentos que não correspondiam a animais conhecidos. Pequenas figuras pareciam se deslocar entre as árvores, depositando objetos ou “ofertas”. Cada vez que a equipe se aproximava, o nevoeiro parecia se adensar, tornando impossível identificar quem ou o que estava lá. Era como se a floresta estivesse consciente, reagindo à presença humana, escondendo quem quer que mantivesse os rituais.
Ana passou a acompanhar pessoalmente cada expedição, anotando cada detalhe em seu diário. Ela sentia que estava em contato com algo antigo, algo que transcendia o tempo. Cada descoberta — o crânio de Lucas, as estatuetas, o altar subterrâneo, os restos da família Hthorn — mostrava que não se tratava de coincidência. O Abismo era um local de poder, e aqueles que ali desapareciam não eram levados aleatoriamente, mas escolhidos para manter o equilíbrio de um ritual que se perpetuava há gerações.
Em uma noite de setembro, Ana e Harvey decidiram acampar próximo ao pântano, tentando observar sem interferir. Por horas, nada aconteceu. Mas por volta da meia-noite, eles ouviram passos suaves, farfalhar de folhas e um canto baixo e melódico, parecido com o zumbido de um pássaro distante. Quando iluminaram com lanternas, viram pequenas estatuetas recém-colocadas no chão, apontando para o centro do círculo. Era como se alguém estivesse avisando: “Estamos aqui. Nós observamos. A tradição continua.”
Ana sentiu medo, mas também uma estranha sensação de dever. Agora sabia que o passado e o presente estavam conectados, e que o segredo do Abismo não poderia ser revelado sem enfrentar quem continuava os rituais. A cada noite, o nevoeiro parecia mais denso, e o som das asas ou passos invisíveis se tornava mais real. O Abismo não apenas guardava os desaparecidos; ele os lembrava, os punha em cena novamente, como se cada ritual fosse uma mensagem para quem ousasse investigar.
No início de outubro, Ana e Harvey Lang decidiram que precisavam se aproximar do epicentro do Abismo, onde todas as estatuetas, desaparecimentos e antigos rituais convergiam. A equipe incluía dois ex-guardas florestais, Allan Moore e David Johnson, e um pequeno grupo de arqueólogos especializados em sítios remotos. Cada um carregava câmeras, lanternas, drones e equipamentos de gravação térmica. A atmosfera era tensa; ninguém falava muito, apenas caminhava silenciosamente pela lama, raízes e pedras, com o nevoeiro denso envolvendo cada passo.
Ao chegarem no círculo central, perto do antigo pântano, a sensação era surreal. Estruturas de galhos, musgo e ossos ainda estavam lá, mas agora mais deterioradas. Alguns objetos haviam desaparecido desde a última expedição, como se alguém tivesse limpado o local, removendo pistas ou preparando-o para algo. Harvey percebeu que a área parecia ativa, quase viva. Pequenos rastros de cinzas e restos de folhas queimadas indicavam que uma fogueira recente havia sido feita ali. Era a primeira prova concreta de que os rituais não eram apenas memórias ou tradições antigas — alguém estava praticando-os no presente.
Enquanto examinavam os galhos do pântano, um drone detectou uma anomalia térmica em movimento, uma série de pequenas fontes de calor que se deslocavam rapidamente entre as árvores. Não eram animais conhecidos; os pesquisadores perceberam que os objetos se moviam de forma coordenada, como se fossem conduzidos por mãos humanas, mas sem deixar rastros no chão úmido. Allan sugeriu recuar para observar de uma distância segura. Harvey concordou, mas Ana insistiu em permanecer mais próxima. Ela sentia que precisava ver com seus próprios olhos.
À noite, quando o nevoeiro se adensou, surgiram os sons: passos suaves, cantoria baixa, e o farfalhar de folhas como se alguém estivesse se movendo acima deles nas árvores. As lanternas revelaram sombras rápidas, mas ninguém estava visível. Então, no centro do círculo, uma figura humana emergiu, mas não parecia comum. Estava coberta por mantos escuros, camuflados no nevoeiro, e carregava pequenas estatuetas nas mãos, depositando-as sobre o solo em padrões que correspondiam às marcas ancestrais do culto. Harvey registrava tudo em vídeo, enquanto Ana observava cada gesto, cada detalhe, reconhecendo os movimentos antigos descritos nos relatos históricos da família Hthorn.
De repente, a figura se voltou e olhou na direção de Ana. Por um instante, algo nos olhos dela brilhou — não humano, mas consciente. A figura desapareceu rapidamente, evaporando-se no nevoeiro. Mas quando os investigadores correram até o local, encontraram algo perturbador: uma nova estatueta, idêntica àquelas que Ana havia visto perto do crânio de Lucas Warren. Desta vez, estava posicionada sobre uma pequena pedra coberta de musgo, com marcas precisas de faca e símbolos gravados nas asas do pássaro. Alguém, ou algo, havia repetido o ritual novamente, mantendo viva a tradição.
Os investigadores passaram a noite acampando próximos ao local, tentando registrar qualquer movimento. As câmeras térmicas mostraram figuras se movendo entre as árvores, pequenas fontes de calor subindo e descendo rapidamente, como se fossem conduzidas por mãos invisíveis. Ana percebeu que o culto não se limitava a humanos — ou, pelo menos, eles utilizavam técnicas que faziam parecer que os espíritos da floresta intervinham, manipulando o ambiente para proteger seus segredos.
No dia seguinte, explorando mais a fundo, a equipe encontrou outra entrada escondida, parcialmente coberta por raízes de árvores antigas. Dentro, sinais claros de ocupação recente: camas rústicas, utensílios simples, restos de comida e ossos de animais cuidadosamente arranjados. Em uma prateleira improvisada, uma coleção de estatuetas de madeira idênticas às que Ana já conhecia, incluindo uma réplica do pássaro do crânio de Lucas Warren. Harvey percebeu que o lugar funcionava como uma espécie de “santuário” ou centro ritualístico, onde objetos e símbolos eram depositados e preservados através dos anos.
Ana começou a perceber um padrão nos objetos: cada estatueta estava ligada a um desaparecimento, cada uma cuidadosamente posicionada em relação ao círculo central do pântano. Era como se os responsáveis estivessem “marcando” os eventos, repetindo os rituais antigos para manter uma conexão entre os vivos e os mortos. Ela sentiu um frio profundo ao perceber que o culto não apenas reverenciava o passado, mas também monitorava o presente. Cada passo que ela havia dado nos últimos anos fora observado e registrado, como se a própria floresta tivesse olhos.
Quando o sol começou a nascer, dissipando parte do nevoeiro, a equipe percebeu que não estavam sozinhos. Pegadas pequenas e discretas levavam para fora do círculo, desaparecendo misteriosamente entre as árvores. Alguns sinais pareciam recentes, outros antigos, mas o que mais perturbava era a sensação de que haviam sido “preparados” para serem encontrados, uma mensagem silenciosa de que aqueles que buscavam respostas eram observados. Ana percebeu que o Abismo não permitiria que o passado fosse desenterrado sem consequências.
O sol mal surgia quando Ana, Harvey Lang e a equipe decidiram avançar mais fundo na caverna escondida atrás das raízes antigas. O ar estava quente e úmido, carregado de um cheiro de resina, terra molhada e algo indefinível, quase metálico. Cada passo reverberava nas paredes, ecoando de forma estranha, como se o lugar tivesse consciência própria. As estatuetas de pássaros, agora dezenas, pareciam vigiar cada movimento deles. Harvey registrava tudo em vídeo, enquanto Ana sentia o coração acelerar: estava próxima da verdade, mas também do perigo.
No fundo da caverna, descobriram um altar natural de pedra, coberto de musgo, ossos e pequenos objetos antigos. Mas algo chamou atenção: restos de fogueira recentes e marcas de corda espalhadas no chão, como se alguém tivesse sido amarrado ali. Entre os objetos, uma estatueta recém-esculpida, idêntica à que estivera no ninho de águia com o crânio de Lucas Warren. Ana percebeu então que o culto não havia cessado com o tempo; alguém continuava os rituais, talvez até hoje, mantendo viva a tradição de sacrifícios e oferendas.
Harvey sugeriu examinar a entrada lateral da caverna, parcialmente coberta por raízes e folhas. Era estreita, quase um túnel natural, mas oferecia acesso a uma área elevada da floresta. Quando escalaram cuidadosamente, encontraram marcas na casca das árvores e pequenas figuras de madeira penduradas em galhos, todas direcionadas para o centro do círculo do pântano. Um padrão tornou-se claro: os desaparecimentos não eram aleatórios, cada vítima fazia parte de um ritual maior, ligado à energia do lugar, às lendas de antigos colonos e aos mitos do tartaranhão dos pântanos.
À medida que o nevoeiro se adensava, Ana ouviu o mesmo zumbido que ouvira anos atrás, na noite em que passara sozinha no riacho. Desta vez, era mais intenso, contínuo, como se emanasse das próprias árvores. As sombras começaram a se mover entre as árvores, rápidas e silenciosas, formando figuras quase humanas. Harvey registrou tudo, mas ninguém ousava se mover em direção a elas. Ana sentiu que os espíritos da montanha, ou os membros do culto, estavam cientes da presença deles e observavam cada ação.
No centro do círculo, entre os galhos e musgo, havia um pequeno compartimento coberto por folhas. Ana afastou cuidadosamente o material e encontrou algo inesperado: uma caixa de madeira antiga, com inscrições semelhantes às das estatuetas. Dentro, documentos antigos, fotos desbotadas e registros de desaparecimentos que datavam do século XIX, incluindo a família Hthorn. Mas havia algo mais perturbador: um registro moderno, contendo nomes de pessoas que ainda não haviam desaparecido, incluindo datas futuras e coordenadas específicas dentro do pântano. Ana percebeu com horror que o culto não apenas preservava rituais antigos, mas também planejava novas vítimas, repetindo o ciclo ancestral.
Enquanto examinavam o local, Harvey notou movimentos na sombra das árvores próximas. Antes que pudessem reagir, figuras humanas surgiram — vestidas com mantos escuros, carregando pequenas estatuetas. Um dos homens ergueu a mão em silêncio, sinalizando que os visitantes deveriam sair. O clima era tenso; qualquer movimento em falso poderia desencadear violência. Ana, com o coração acelerado, percebeu que haviam invadido o território sagrado. Com cuidado, recuaram lentamente, registrando cada detalhe, mas sem tocar em nada além do necessário.
De volta ao acampamento base, Ana refletiu sobre tudo que descobrira. O caso de Lucas Warren não era um acidente, nem um desaparecimento isolado. Ele havia sido a vítima mais recente de um culto antigo, que operava há mais de um século, conectando antigos colonos, estatuetas ritualísticas e desaparecimentos modernos. Cada crânio, cada figura de madeira, cada rastro no nevoeiro era uma prova de que a floresta lembrava e repetia os sacrifícios. Ana percebeu que Black Bear Creek não era apenas um local perigoso; era um lugar vivo, onde o passado e o presente se entrelaçavam, e onde o desconhecido mantinha seu domínio.
Nos meses seguintes, a polícia continuou a monitorar a área, mas o culto nunca foi localizado. Câmeras deixadas no Abismo foram destruídas misteriosamente e drones desapareceram sem explicação. Ana finalmente deu um enterro a Lucas, colocando sobre seu túmulo a estatueta de pássaro de madeira como lembrança e aviso. Mas mesmo depois disso, às vezes, durante noites de nevoeiro em Boulder, ela jurava ouvir o farfalhar de asas nas árvores, o zumbido familiar, como se Black Bear Creek ainda estivesse vigiando, ainda esperando, mantendo seus segredos intactos.
O mistério não tinha fim. A floresta continuava viva, silenciosa, implacável. E Ana sabia que, embora pudesse enterrar seu marido, não poderia enterrar o medo que o lugar lhe deixara. Black Bear Creek permaneceria como sempre: um abismo de segredos, onde a memória dos desaparecidos e dos antigos rituais nunca morreria.